Era uma vez um sonho, uma Ilha ...

Era uma vez um sonho, uma Ilha...

Este pequeno conto deriva de um sonho que tive ainda solteira e que muito me impressionou. Mais tarde, ao ganhar melhor compreensão sobre experiências iniciáticas e a trajetória mística,  transformei em um conto que  foi publicado em 1996, na Antologia "O Sonho", da Litteris Editora, Rio de Janeiro. Eis o sonho:


Estávamos caminhando numa estrada de barro. Eu e algumas pessoas das quais tinha consciência embora não visse seus rostos, nem mesmo prestasse atenção em seus corpos que caminhavam a meu lado. Sequer era importante o fato de sermos homens ou mulheres, adultos ou crianças, termos corpos ou não. Nada importava. Apenas o objetivo para o qual nos dirigíamos.



Chegamos às margens de um rio sobre cujas águas turvas balançava uma espécie de barca feita de grossos troncos de madeira amarrados uns aos outros. Embarquei juntamente com algumas pessoas, não todas. Percebi que outras tomavam destino diferente.

Nossa embarcação moveu-se guiada por um homem encapuçado, um estranho barqueiro que trajava vestes cinzas  e mantinha-se o tempo todo de costas para nós. Era uma figura tão silenciosa quanto um espectro. Sabíamos que simplesmente cumpria uma função.





O imenso rio que atravessávamos era pantanoso, poluído, lúgubre... exalava um cheiro ocre e era encoberto por uma bruma cinzenta que mal nos permitia ver o que estava a frente. Suas águas fétidas pareciam depositárias de todos os destroços produzidos no mundo pelas guerras, doenças e catástrofes em todas eras. Haviam corpos em decomposição , esqueletos humanos e de animais, vestígios pré-históricos, pedaços de armas e bombas, aviões, embarcações, artefatos bélicos antigos e modernos numa exposição dantesca e assustadora. Uma mistura nauseante dos resíduos da violência humana contra si mesmo.




Mas, nosso objetivo não era ali, era à frente, à leste, em direção ao sol. As águas do rio foram então clareando, clareando e, de repente já não era mais o rio e sim o mar, com sua brisa fresca, deliciosas ondas e águas cristalinas. Todo o trágico resumo da história do mundo havia ficado para trás. Era como um peso tirado de nossos ombros.

A "Ilha" surgiu ao longe, iluminada pelo sol que despontava. Parecia miragem dilatando nossa alma grupo de alegria. Estranho que o tempo todo eu não tinha uma consciência solitária. Era eu e os outros, sem rosto e sem ego. Tínhamos a exata sensação de que éramos "Um" e chegávamos finalmente ao nosso destino.




Ele, o "Vigilante" nos aguardava de pé sobre as areias brancas daquela praia. Seus olhos pareciam absorver-nos para dentro de si. E foi através deles que nos falou e mostrou toda Ilha e todo o segredo que se revelava neste sonho. O sonho de um retorno aguardado a muito tempo, mas esquecido. Suas barbas e sua face projetando-se no espelho da areia translúcida , resumia toda a ideia de atemporalidade. Era mesmo o Ancião dos Dias, sem dias a serem contados.




Sonhávamos o sonho da harmonia entre a humanidade e Deus, entre a alma e sua Fonte. Todo um caminho a percorrer e, ao final, o Paraíso. ... Os olhos do Ancião nos mostrou  toda a Ilha, sentimos sua paz, observamos seus tesouros e soubemos também seu destino: depositária das criações humanas, de tudo o que não deve ser perdido ou esquecido. Todos os sonhos e anseios de beleza e bondade, paz e justiça, glória e esplendor, saber e triunfo, virtude e fundamento. Ali estavam as chaves para o verdadeiro Poder, sem ambições , sem expectativas e sem amarras e seu símbolo - uma árvore, uma única árvore síntese de toda a criação, a àrvore da vida no centro do mundo. E ela estava ali, a árvore, bem a nossa frente, esplendorosa, tentadora e tão inalcançável como na noite dos tempos. E a seus pés a serpente, guardiã dos mistérios e da sabedoria, novamente adormecida.





Mais tarde nunca soube quem de fato sonhara aquele sonho, se fomos nós ou Ele, o Ancião? Sonháramos com ele ou ele sonhava com o mundo e nos buscava em seus sonhos?

Lembro-me de seu olhar, enquanto nos contemplava outra vez partir. Compartilhávamos um misto de tristeza, saudade, doçura e também solidão. Sim, havia marcas de solidão e resignação no rosto calmo do "Ancião dos Dias" como se soubesse todo tempo que esperaria até que pudéssemos voltar. A barca afastava-se lentamente. Acenávamos prometendo que voltaríamos, que o caminho não seria esquecido. Ele sorria enigmático em seu silêncio. Suas barbas cresciam, cresciam, encaracoladas, ocupando toda a extensão da praia, como se dessa forma pretendesse mostrar o tempo que levaríamos para lembrarmos outra vez, do sonho, da ilha e da promessa.

Então tudo foi ficando para trás, dissolvendo-se aos nossos olhos e confundindo-se em nossas memórias. A consciência desfez-se também aos poucos. De repente, já não éramos nós e sim outra vez cada um, com sua história, sua lembrança, sua vida e seu destino.


Adohra Akya
Renata Biscaia Raposo Barreto , 1979


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